Um dos primeiros filmes antigos da série que vi depois de adulto, “Octopussy” tem uma história e tanto. Lembro que foi uma escolha um tanto aleatória: ainda em 2012, meu boxset “Bond 50” estava para chegar dos Estados Unidos, mas eu estava muito ansioso para ver do que se tratavam os filmes antigos. Além dos com Pierce Brosnan e Daniel Craig, havia visto apenas “Dr. No“, “From Russia With Love” e “Goldfinger” em VHS quando a locadora perto de casa fez um saldão para substituir o estoque por DVD. Eis que a Netflix colocou todos no catálogo e escolhi um em vez de jogar “Halo: Reach”, coisa a que meu amigo Silvio reagiu dizendo: “Em vez de jogar com a gente, foi assistir a um 007 do tempo da onça”. E ele tinha certa razão. Talvez acidentalmente, ele usou um adjetivo que, mais que temporal, fala também de certa cafonice associada ao passado do personagem, ao absurdo de suas aventuras e de como ele foi desde a fantasia militar até tentar acompanhar modas da época descaradamente.
A história começa com a investigação da morte do Agente 009, que aparece mortalmente ferido na casa do embaixador britânico portando um Ovo Fabergé. James Bond (Roger Moore) inicia sua investigação para descobrir por que essas joias de valor inestimável estão na mira de contrabandistas profissionais e qual a relação destes últimos com um general soviético descontente com as recentes políticas internacionais de seu governo. Faz mais sentido do que parece e até é uma trama das mais decentes de toda a era clássica, ao contrário do que dizem. Basta prestar atenção para ver que este é um dos poucos roteiros de 007 que exigem um pouco mais de atenção do espectador e não entregam tudo explicado até a morte.

A ironia é que “Octopussy” nem de longe se porta como uma obra que exige certa atenção mais dedicada. Talvez por esse ser o décimo terceiro filme da série e a audiência já saber mais ou menos o que esperar dos roteiros e do tom, haja uma expectativa muito sólida do que pode ser oferecido. Por um lado, há certa razão, considerando que muitas das histórias tratavam de um vilão megalomaníaco com um plano de destruir o mundo, o Ocidente ou a Inglaterra, independentemente do tom adotado pela história. Este não é muito diferente, e entre seriedade e exagero fantasioso, ele cai no segundo campo, deixando claro desde o começo que se trata de uma experiência mais leve e absurda em vez de algo preso ao realismo. Assim, imagino que uma trama relativamente complexa possa acabar se perdendo na aventura descontraída proposta por todo o resto da obra, e isso é apenas uma inconsistência de um trabalho quase paradoxal.
Isso porque o filme é uma bagunça relativa, ou melhor, adota uma filosofia maximalista e tem tantos detalhes, tantas ideias e tantas setpieces que, por vezes, chega a parecer um “Melhores Momentos” ou “The Highlights of 100” de Seinfeld com um destaque atrás do outro. Ao mesmo tempo, nem todas essas ideias funcionam igualmente bem, então há certa inconsistência de qualidade quando se analisa a fundo, ao passo que a experiência é tão fluída que não há como dizer que “Octopussy” não é um dos mais divertidos da série, ainda que não esteja entre os melhores. Por exemplo, o que acontece aqui é um pouco diferente de “Moonraker“, que muitas vezes construía muito bem sequências e estragava tudo com uma conclusão excessivamente cômica que agracia a cena com um ar de desenho animado bobão. Há situações extremamente bobas aqui, claro, mas o ponto é melhor ilustrado por uma sequência na Índia em que logo que James Bond chega, ouve-se o tema principal tocado numa flauta pelo seu contato, interpretado por um então famoso tenista Vijay Amritraj. Como exagerar? Colocar tudo que é possivelmente indiano em cena: flauta com cobra, Tuk-Tuk, artistas que engolem espadas, pisam em brasa, deitam em cama de pregos, e colocar o tenista batendo num vilão com uma raquete de tênis, obviamente.
A questão é justamente o quanto é demais. A perseguição de Tuk-Tuk é ótima, por exemplo, mas acrescentar o tenista batendo de forma muito pouco convincente nos assassinos é tirar o mérito de cena, assim como tirar a espada da garganta do indiano para bloquear um golpe não soa má idéia, mas junto com todo o resto parece um vaudeville asiático pensado por britânicos. Não funciona bem e parece até explorador, o que não é muito longe do que costumam dizer sobre 007 nos Anos 70. Ademais, não poderia faltar menção ao detalhe mais infeliz de todos aqui, que só Deus sabe por que foi inserido e como mais de uma pessoa concordou com isso: o grito do Tarzan. Em certo momento, Bond escapa por um trecho de floresta cheio de animais silvestres enquanto tentam caçá-lo com armas, fuga que funciona de forma decente na maior parte do tempo até que Bond encontra alguns cipós e se balança para fugir. É aí que sai o infeliz grito, exatamente o mesmo clipe de áudio de Johnny Weissmuller, aparece para o desagrado de todos ou para fazer companhia ao apitinho de “The Man with the Golden Gun” como piores decisões da série.

A ironia é que, apesar de todo esse caos e excessos encontrados muito frequentemente, apenas algumas poucas decisões me incomodam profundamente. Não é a fantasia de palhaço, antes de mais nada, pois apesar de todo o cuidado empregado na maquiagem e no figurino enquanto uma bomba estava em contagem regressiva, faz sentido estar em disfarce e a cena como um todo é competente e tensa como deveria ser. Talvez a setpiece final com a gangue de ginastas invadindo a fortaleza pudesse ter sido cortada ou reimaginada, assim como o capanga com o ioiô cortante é ambos um vilão a mais do que o necessário e uma ideia estúpida. “Octopussy” já contava com dois excelentes vilões nas formas de Kamal Khan (Louis Jordan), um criminoso de finesse e postura refinadas e modestamente um dos melhores vilões da série, e de Gobinda, um capanga calado que consegue sair muito bem nos vários close-ups dedicados aos seus olhos castanhos claros e à expressão repleta de ódio. Trazendo Maud Adams de volta como uma Bondgirl mais madura e numa idade compatível com um Bond envelhecido, “Octopussy” reforça que um de seus pontos altos é o elenco e quão bem todos estão, especialmente Roger Moore que parece mais confortável do que nunca no papel tanto no humor como na seriedade.
Trazendo o melhor e o não tão bom da série juntos numa mesma obra, “Octopussy” poderia ter sido tão mais com alguns cortes ou revisão de certas ideias. Não necessariamente um filme mais sério, mas talvez algo com menos alvos fáceis que até hoje são usados por aqueles que criticam pelos mesmos motivos. É sempre a fantasia de gorila, o disfarce de palhaço, o submarino de crocodilo e nunca o plano da garota, no começo, de tentar se insinuar sexualmente para distrair soldados cubanos e ajudar James Bond a escapar, por exemplo. Mesmo assim, não há uma vez que tenha visto esse filme sem ter a certeza de que nunca vou mudar minha opinião sobre ser um excelente entretenimento, apesar de todas as inconsistências que provavelmente vieram numa tentativa desesperada de tentar superar seu concorrente direto naquele ano: “Never Say Never Again“, o 007 pirata.

