Depois do sucesso estrondoso de bilheteria de “Bohemian Rhapsody“, chegando a quase 1 bilhão no mundo todo, além de quatro Oscars e uma boa recepção da audiência, ainda que a crítica tenha sido mais severa. Um ano depois, “Rocketman” é lançado com uma proposta parecida e um formato um pouco diferente, tratando da história de outro grande artista britânico numa obra que toma liberdades artísticas na narrativa em vez de licença poética na apresentação dos fatos. O sucesso foi menos estrondoso, mas ainda assim saiu no lucro e ganhou um Oscar de Melhor Canção Original. Depois de outros sete anos, “Michael” surge dos mesmos produtores dos dois anteriores, dando ao Rei do Pop a sua própria cinebiografia em formato e estética já familiares.
Tudo começa dentro do lar dos Jacksons em Gary, Indiana. Joseph Jackson (Colman Domingo) tem uma grande família e um plano ainda maior: levar seus cinco filhos mais jovens para o estrelato num projeto que ele chama de Jackson 5. Composto por Tito, Jermaine, Jackie, Marlon e o jovem Michael, o pequeno grupo pratica sob o punho de ferro do pai até que chega a hora de encarar os palcos e o mundo, que logo os abraça e os transforma num dos maiores nomes da época. O Jackson 5 começa a dominar o país, mas logo se mostra pequeno demais para o gigante do pop que Michael Jackson (Jaafar Jackson) viria a se tornar.

A primeira coisa que preciso tirar do peito, e que espero que justifique um pouco do primeiro parágrafo introdutório, é que “Michael” parece ter exatamente a mesma estética das outras duas produções mencionadas. Os três filmes são iguais. É até estranho pensar que são épocas diferentes e até estilos musicais diferentes, mas algo na apresentação brilhante e viscosa como um gloss de lábios — glossy, em inglês — os une de uma forma que não considero exatamente positiva, que ainda sugere um tipo de padronização fabril na concepção dessas obras. Primeiro, o filme do Queen, depois o filme de Elton John, e agora Michael Jackson recebe o mesmo tratamento. Enquanto as cenas de infância recebem o tratamento higienizado de casa antiga com aparência de nova, talvez mais apropriadamente chamada de evidente set de cinema, as outras são sempre cintilantes e bombardeadas por diversas fontes de luzes que valorizam toda e qualquer ranhura, dobra, textura e tecido filmado. Há apenas uma exceção: mais perto do final, vê-se também uma grande beleza, uma expressão de saudosismo estético dos Anos 90 na forma de refletores enormes e pesados, painéis inteiros deles com uma lâmina de gel na frente para dar cor ao feixe de luz. Se há algo que pode ser chamado de belo, é isso.
Seguindo por esse caminho, reapresentar e reaproveitar o fator espetáculo das canções dos artistas nunca foi problema para esse tipo de filme. Todos conseguiram usar de uma forma ou de outra a música para tentar recriar no cinema a emoção das apresentações daqueles artistas. Seja o Live Aid ou no Victory Tour, os responsáveis são bem-sucedidos em recriar a magia do momento e do artista: a sensação de não só ouvir a música, que por si já carrega poder, mas também de presenciar isso de um ponto de vista privilegiado, praticamente em cima do palco com o artista e frente a frente com a banda. Não à toa esses momentos costumam ser os clímaxes da história: são o ápice da experiência cinemusical proposta.
Por outro lado, como não se trata de um filme-concerto, uma boa parte da obra aborda a vida fora dos palcos, quem são os artistas longe da plateia e como foi a vida até chegar ao topo. E, sim, todos sabemos que Michael Jackson é uma figura cercada de controvérsia e de polêmica, especialmente quem cresceu com ele ainda vivo e acompanhou alguma parte de sua vida; sejam as raras aparições públicas, sua transformação física constante ou até sua morte prematura em 2009. Falar em uma nova produção sobre Michael é ver as acusações de pedofilia esgueirando na sombra, não muito longe, e nesse caso não foi diferente. Muitos disseram que a história é sanitizada e que isso é o maior problema aqui, porém é óbvio que seria assim e é o único jeito que qualquer obra endossada pela família Jackson existiria. O que mais poderia se esperar? Isso não é “Leaving Neverland”, e, dentro dos limites estabelecidos, o que se cria é um retrato bastante razoável e menos descaradamente fabricado do que poderia ter sido.

O protagonista é apresentado desde pequeno como alguém retraído e constantemente cobrado e castigado por seu pai. Desde os 6 anos, Michael Jackson já está sob constante pressão para ser um grande dançarino e cantor em imaculada consonância com o resto do grupo. Tudo deve ser perfeito, e o sucesso acaba por chegar ainda antes da infância do jovem artista, que não tem opção além de seguir o caminho planejado para ele. Privado de uma vida normal dentro e fora de casa, trabalhando com os irmãos e tendo um chefe no lugar do pai, sem conseguir viver uma vida de criança na escola com gente normal, quem cresce para se tornar um adulto é uma pessoa já fragilizada. Então com poder e maior independência em mãos, o adulto Michael Jackson é mostrado como alguém infantilizado, imaturo e desprovido de uma visão que lhe dá referências básicas de um ser humano adulto. Por mais que a história nunca entre nos detalhes sórdidos, a imagem criada está longe de soar desonestamente fabricada. É um ser humano falho e atípico na tela, além de imensamente talentoso.
“Michael” explora tanto a trajetória da banda e da carreira solo como a vida do artista nesse período pré-Jackson 5 até a Victory Tour em 1984. A história da banda, provavelmente, é bastante simplificada para conseguir encaixar em 127 minutos, mas ao meu ver de um leigo que não conhece os detalhes mínimos da história real, soou razoável e balanceada sem aparentar pressa ou pouca profundidade. Longe de ser um filme para a HIStória, é competente o suficiente para recontar os eventos principais de um grupo e apresentar seu astro de forma humana, ainda que sofra com diálogos ocasionalmente tão artificiais e autoconscientes de um ponto de vista biográfico, que jamais sairiam da boca de uma pessoa. É algo nas linhas do protagonista falar que o próximo álbum vai ser o álbum mais vendido de todos os tempos. E então começar a trabalhar em “Thriller”. Se esse quesito soa tão mal, é de se celebrar que as performances do elenco em sua maioria, com destaque a Colman Domingo e Jaafar Jackson, ajudem a equilibrar com um lado não-verbal visivelmente humano.

