Por algum motivo, o gênero Documentário tem visto um tipo de ressurgimento de popularidade nos últimos anos. O motivo? Há uma possível dúzia. Talvez porque seja mais fácil produzir um documentário, um produto finalizado qualquer, e assim ter maior volume para alimentar os catálogos de streaming, tal como se vê na Netflix e sua incrível capacidade de produzir um filme ou minissérie rapidamente quando algum assunto entra em alta. Com certeza custa menos do que um filme com elenco estrelado ou qualquer obra de ficção. Talvez porque seja um conteúdo que muita gente considere fácil de deixar passando ou talvez seja um formato melhor de acompanhar true crime, por exemplo, do que ouvir uma série longa de podcasts. Para bem ou para mal, o movimento vem acontecendo, e algumas obras muito boas saíram disso. “David Crosby: Remember My Name” não é um caso de produção para streaming que deu surpreendentemente certo, e sim uma referência a ser seguida por qualquer documentário que preze pelo mínimo da honestidade e franqueza.
E falando nessas duas coisas, ao menos na última delas, David Crosby é a pessoa perfeita para isso. Se por um lado, “David Crosby: Remember My Name” não é um documentário que desafia limites de narrativa e tenta elevar o gênero a um novo patamar, ele se beneficia dos elementos mais básicos e essenciais para se diferenciar dos milhares de outros documentários e até do típico documentário musical que se via na MTV ou na VH1. O elemento principal é nada menos que um protagonista fácil; alguém que responda às perguntas, conte as histórias, não esconda detalhes e, se mentir, que minta bem na frente da câmera para não ser pego.

O lado bom é que David Crosby é uma pessoa muito entrevistável. Se, por um lado, sua fama é de ser uma pessoa difícil de lidar, tenho a impressão de que ele foi um entrevistado dos sonhos e que facilitou significativamente a vida do diretor A.J. Eaton. Sendo um livro aberto, todas as histórias e polêmicas e as assunções de culpa foram disponibilizadas pela pessoa centralmente envolvida sem filtro aparente. Fala um homem velho, agora já falecido há três anos, de uma posição de reflexão, aquela de alguém que sabe que está muito perto da morte e se sente compelido a colocar as coisas em perspectiva. Por coincidência, falava sobre essa mesma coisa com um amigo ontem, sobre como seu pai passou a apreciar um pouco mais a pessoa que ele se tornou na vida adulta em vez de focar estritamente nas conquistas materiais. Ambos os homens, perto da morte, mudaram um pouco a forma como pensavam, algo que pode soar clichê, mas ainda assim é feliz, considerando quantas pessoas não mudam nem ao fim da vida.
Agora, ninguém conhece meu amigo nem o pai dele, muito menos as histórias deles, para entender como isso impacta a vida de ambos, ou mesmo o que isso importaria para qualquer pessoa fora do seu círculo. Já f é uma celebridade cujas histórias são conhecidas e divulgadas mundo afora em biografias, entrevistas e fofocas, além de haver um interesse inato pela pessoa por trás da música. É natural querer saber o que inspirou “Guinnevere” ou qual é a história do homem que participou dos “The Byrds”, foi demitido, criou um supergrupo com Graham Nash, Stephen Stills e, mais tarde, Neil Young, e depois brigou com praticamente todos eles. Muito desse material já existia e era bastante divulgado, mas a intenção de “David Crosby: Remember My Name” não é apenas repetir as mesmas histórias e reciclar material, Crosby quer principalmente dar continuidade e reposicionar esses eventos no cenário então atual de sua vida.
O maior exemplo disso é falar abertamente sobre como ele se sentia no momento em relação aos problemas e brigas do passado, não só recontando os fatos mas também refletindo sobre como talvez todos os seus amigos tenham se afastado dele porque ele talvez seja um babaca. Talvez não; há uma posição afirmativa e definitiva da parte dele: Crosby admite muita coisa e não mede palavras ao dizer que, sim, usou drogas demais e também arrastou outras pessoas para o vídeo, tendo agência na ruína de suas vidas; ou que não amou certas pessoas corretamente, apesar de todo o amor sincero que recebeu delas. Não é sempre que se ouve alguém admitir qualquer uma dessas coisas. Ver alguém famoso admitir tão publicamente qualquer uma dessas coisas é raro, e de forma tão honesta é até revigorante por não ser filtrado pelo crivo de Relações Públicas, do agente, da família ou de qualquer um que não seja a pessoa envolvida.

Mais do que isso, para aqueles que já estão cansados desse lado confessional da personalidade de Crosby, há tudo aquilo que um poderia buscar num documentário de música. Com curadoria refinada do material de arquivo para complementar as entrevistas novas, a história do musicista toma forma em reconstruções ricas em detalhes, como quando ele fala da última apresentação de “Crosby, Stills and Nash” cantando “Silent Night” de forma desafinadamente hilária, ou mais comedida quando o assunto pede mais sensibilidade, tal qual a triste história de um dos amores da vida de Crosby. Não só isso, como sobra espaço para um pouco de espontaneidade e até ingenuidade da parte do diretor, como quando ele leva o músico a um mercadinho de bairro e este responde: “Não sei por que você me trouxe aqui; é só um mercado perto de onde a gente morava. Ninguém se encontrava aqui.” É um quase-erro bastante honesto. Escapa-se da programação esperada para um documentário e, subitamente, tudo se torna humano de uma outra forma diferente da artística e da sentimental bastante exploradas antes. Há apenas um mural com fotos de artistas e Crosby sequer está nele. No fim das contas, acabam falando um pouco sobre Mama Cass antes de ir visitar um local verdadeiramente importante: a casa onde Graham Nash morou com Joni Mitchell e compôs “Our House”. Ah, e é claro, a história de como Mitchell terminou com Crosby deve ser uma das melhores histórias da música popular.
Se há alguma coisa que posso dizer que senti um pouco de falta em “David Crosby: Remember My Name”, embora considere inessencial diante do que foi apresentado, é a presença de mais entrevistados trazendo relatos num mesmo contexto temporal que o de Crosby. Imagens de arquivo fazem muito aqui, mas seria interessante ver o que Graham Nash ou Neil Young teria a dizer sobre as polêmicas ou sobre qualquer outra parte de sua história compartilhada. Ao menos para tridimensionalizar algumas histórias, que fosse, já seria uma adição positiva para um documentário que, no fim, mostrou-se como uma enorme surpresa por quão eficiente consegue ser em sua simplicidade.

