E cá estamos, 21 anos após o lançamento do original e na terceira continuação. Depois do desastroso “Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III“, que apelou para descartar arbitrariamente certos fatos da história para justificar sua existência sem exatamente explicar como se encaixa na linha do tempo, e não só isso, rendeu-se às convenções de gênero e fórmulas popularizadas na década anterior para entregar uma obra de muito pouco espírito e originalidade. Pior do que isso, de baixa qualidade. Então se passam outros cinco anos e “The Return of the Texas Chainsaw Massacre” aparece com seu título ridículo e pôster com uma serra elétrica servindo de batom, um sinal de que alguma coisa estranha estava por vir.
Mas o que está retornando exatamente? Se “The Return of the Texas Chainsaw Massacre” fosse um filme mais estúpido, o que não é dizer que ele é inteligente, poderia escrever um parágrafo inteiro falando de quão tosco é usar o tal Retorno se referindo a algo que, bem, sequer pode retornar pois é um evento, não um indivíduo. Mas ao menos isso soa como um toque de ironia, ainda que soe como uma piada pouco pensada no estilo de “A Volta dos que Não Foram” ou algo derivado de “Return of the Living Dead”. De tudo, ao menos é uma obra autoconsciente de certas coisas, e tendo Kim Henkel, o roteirista do original, retornando para dirigir, a suspeita fica mais próxima de ser confirmada de fato. O pôster absurdo sela o acordo e deixa claro de que trata-se de mais uma releitura alternativa e provavelmente cômica.

A história apresenta um novo grupo de jovens, novamente passando pelo interior do Texas, voltando de uma festa de formatura de ensino médio depois de uma briga. No meio do trajeto, eles sofrem um acidente numa estrada pouco frequentada e saem em busca de socorro, mas as únicas pessoas que encontram são uma gente esquisita que não parece ter os mesmos interesses deles em mente. Logo menos, seus destinos se cruzam com os de uma família assassina que o público bem conhece. Em outras palavras, é quase exatamente a mesma coisa de sempre exceto pelos detalhes.
E isso deveria ser um problema? Bom, diria que, sendo um espectador que não busca sempre originalidade e não tem problema com um tanto de repetição em séries longas, “The Return of the Texas Chainsaw Massacre” já chega soando batido. Talvez porque se passaram 21 anos desde o original e que, nesse ponto, até a abordagem satírica e revisionista não é mais novidade. Não houve a mesma transição de saturação de gênero para tentativa de se renovar porque a primeira continuação, “The Texas Chainsaw Massacre 2“, já se tornou auto-sátira e isso foi quase 10 anos antes. Mesmo assim, o argumento da repetição segue valendo se o resultado for competente, algo que não se pode dizer dessa obra nem se esforçando muito. Se o anterior falhou na tarefa mais básica de ser um slasher tradicional, aqui atinge-se um outro patamar de fracasso ao tentar ser espertinho e fora da caixa e falhar violentamente, ainda que não seja o nível mais baixo que a série atingiu.
Partir da mesma premissa já está estabelecido como um ponto comum para qualquer que seja o direcionamento do resto do filme: sempre alguém há de se perder no Texas e encontrar Leatherface e sua família. Tirando o segundo, é claro. Dito isso, o terceiro e o quarto partem desse ponto e, mais do que isso, o último decide também reciclar ao máximo o roteiro original quase beat por beat: jovens cruzam o caminho de algum Sawyer, separam-se por algum motivo, chegam na casa, conhecem o resto da família e o show de horrores na casa, muitos morrem e alguém sobrevive e foge. O problema principal de “The Return of the Texas Chainsaw Massacre” não é tanto ser derivativo, e sim como a releitura e reutilização de elementos existentes é mais incompetente e todos os elementos novos são dignos de ridicularização sem o benefício da ironia.

Se o segundo traz o tema do sexo no slasher ao primeiro plano de forma grosseira e absurda, ele o faz usando a hipérbole como crítica a algo que o gênero desenvolveu nos anos seguintes. Existe propósito e, mais do que isso, competência, porque não é dizer que “The Return of the Texas Chainsaw Massacre” não tem propósito e é gratuito, ele só executa muito mal seu conceito. A parte humana-normal do elenco representam típicos jovens americanos adolescentes, estereótipos de pessoas que seriam encontradas na época. Tudo bem, é uma idéia, mas também é uma que já foi usada o suficiente em todas as artes para se definir como um clichê, pois não há nada de novo em ter um personagem “babaca bonitão” e uma “patricinha”. Pior do que isso, é simplesmente ridicularizar os próprios símbolos da série de forma que o principal, Leatherface, se torna uma piada sem graça. Não que isso seja um desrespeito ou um desserviço aos fãs — o anti fan-service — mas é apenas patético porque também é uma nova versão que não vai a lugar algum. Não tem graça, não critica nada, não apresenta um ponto e, no fim, é peão de uma nova idéia que surge do mais bizarro nada envolvendo paranoia, sociedades secretas, experiências para-espirituais e seitas. Pois é.
Quanto ao que presta, é justamente o único motivo pelo qual a maior partes das pessoas sabem da existência de “The Return of the Texas Chainsaw Massacre”: a presença de Matthew McConaughey e Renée Zellweger em começo de carreira. Eles são os dois únicos bons atores do elenco e especialmente o primeiro entrega o ponto alto em uma performance tão exagerada e desvairada e nunca fora de sintonia com o tom de loucura típico da série e, mais especificamente, desse filme. Ele grita, se move sempre de forma agressiva e há um tom de imprevisibilidade no segundo que precede seus atos, é a versão ainda mais potente de Viggo Mortensen fazendo a mesma coisa em “Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III“. E por vezes, essa única memória positiva alivia um pouco a carga decepcionante do resto da obra.

