Minha história com “Quantum of Solace” é um tanto particular porque é um dos poucos filmes da série de que sempre desgostei. Não lembro de um momento, nem mesmo em seu lançamento, quando eu tinha 14 anos, em que tive uma opinião mais positiva por falta de parâmetro ou senso crítico. Na época, ainda não havia visto a grande maioria das continuações e não tinha com o que comparar, e ainda assim sentia certa antipatia por ele. Hoje, depois de muitos anos, deixei-o entre os últimos na lista para rever por pura falta de curiosidade de saber se mudaria de opinião. E mudei. Muito sutilmente, mas consegui apreciar o que a obra tem para oferecer de positivo para além de todos os outros pontos negativos que foram reconfirmados agora. Ainda é um dos 007 mais fracos.
Imediatamente após os eventos de “Casino Royale”, James Bond (Daniel Craig) foge de perseguidores pelas estradas estreitas do norte da Itália enquanto carrega Mr. White no porta-malas de seu carro. Após achar que estava em território seguro ao entregar o prisioneiro a M (Judi Dench), eles descobrem que a organização responsável por todos os eventos recentes tem um alcance muito maior do que eles imaginavam. Bond sai em busca de respostas. E de alguém para culpar pela tragédia pessoal de perder seu grande amor, Vesper Lynd.

Por um lado, “Quantum of Solace” tinha tudo para ser um grande filme tal qual seu antecessor foi, continuando a inovadora fase da série com um novo ator e uma nova abordagem; em contrapartida, há sempre o mal da continuação que raramente consegue igualar ou superar o original. Assim, a tarefa não era exatamente fácil e não dá para culpar os responsáveis por não entregarem algo no nível daquele que muitos — inclusive eu — chamam de melhor filme da série. Martin Campbell não retorna, Marc Forster entra em seu lugar, e a produção enfrenta um grande obstáculo chamado Greve da Writers Guild of America de 2007-2008. Uma situação difícil se torna ainda mais complicada por fatores externos, e mesmo sem saber o que de fato influenciou diretamente o resultado, fica claro que a obra foi um tanto prejudicada.
A primeira coisa que chama a atenção é a duração: a mais curta de toda a série. A maior parte da série se mantinha em torno de 2 horas e pouco, com os outros filmes de Craig indo mais longe e ficando em uma média de 149 minutos; já “Quantum of Solace” estaciona nos 106 minutos e deixa aparente que a brevidade não é uma virtude nesse caso nem um respiro para os que gostam de filmes mais curtos. Trata-se de um filme apressado que parte de um ponto relativamente fácil de continuar, sendo este o final imediato do anterior, e segue com algumas ideias sem saber exatamente como amarrá-las de forma coerente. É uma história sobre o conflito entre a missão pessoal de James Bond e o dever perante o MI6? É uma trama mais ou menos tradicional sobre uma crise internacional com um grande vilão no centro? Não parece haver uma inclinação primária. É um pouco de tudo isso em menos de 2 horas.
E essa dúvida entre dois caminhos notavelmente diversos cria uma cisão não só narrativa mas também qualitativa, uma vez que toda a trama envolvendo a vida pessoal de James Bond é muito mais forte que a outra parte. A primeira é uma expansão do conceito visto nas sequências iniciais de “Diamonds are Forever” e “For Your Eyes Only“, apresentando um Bond vingativo em missão de eliminar o responsável pelo assassinato da mulher que ele amava; já a segunda traz Bond investigando uma organização misteriosa de presença ampla que está envolvida na manipulação da política internacional. As duas se conectam? Sim, só não de uma forma construtiva ou complementar, com a segunda parte sofrendo mais pela previsibilidade, pela pressa, ou por nada mais do que decisões ruins.

“Quantum of Solace” poderia ter sido muitas coisas, mas, focando no que ele se propõe, teria sido muito mais interessante mostrar Bond numa missão praticamente suicida em busca de uma verdade que ele não tem certeza se quer mesmo descobrir. Traído e abandonado por Vesper Lynd, resta a ele apenas sua persona de agente secreto como refúgio, exceto que não é seu sentimento de dever que o porta adiante dia a dia. Bond está em pedaços e segue adiante com algum tipo de objetivo em mente e nenhum método, quase um surto de mania alimentado pelo luto que o leva a agir na base de um instinto caótico que atropela todo e qualquer protocolo. Descrevendo dessa forma, pode fazer parecer que é apenas uma reinterpretação do agente renegado indo contra o protocolo, algo já visto antes em “Licence to Kill” e um tanto menos interessante. Felizmente, Daniel Craig é muito bem-sucedido em introduzir e sustentar a dimensão psicológica a fim de evitar que passe por algo sem profundidade como o outro lado do roteiro.
É nessa outra parte que “Quantum of Solace” se perde e muito: exceto pela sequência inicial pré-créditos, muito da ação é filmada de forma extremamente espelhada nos filmes da série Bourne ou é simplesmente mal concebida. Tudo começa com uma intensa perseguição pelas estradas estreitas do norte da Itália; um Aston Martin DBS esburaqueado por tiros e progressivamente mais decadente escapando de outros em seu encalço, tudo ao som da belíssima trilha sonora de David Arnold em sua última contribuição para a série. Já o resto? Há algumas cenas que ainda funcionam, mas não posso deixar de mencionar quão patético é todo o clímax do filme ao entregar-se à filosofia mais estúpida de filmes de ação, que é explodir tudo sem acrescentar nada de interessante. 007 nunca foi sobre a maior explosão ou o maior número delas e, de algum jeito, apresenta um dos piores exemplos desse pseudoconceito aqui.
O vilão está entre os mais esquecíveis da série por ser tão genérico quanto a trama em torno dele, porém devo elogiar a moderação do roteirista em não querer forçar um novo romance só porque era uma tradição ter uma Bondgirl. Se Olga Kurylenko foi uma personagem relativamente esquecível para alguns, para mim, digo que é exatamente essa a intenção e que isso funciona muito bem dentro do cenário de bloqueio emocional em que ambos ela e James Bond são postos. Enquanto essas ideias são bem trabalhadas e o final do filme consegue ser impactante, de alguma forma, não dá para dizer que “Quantum of Solace” não é uma oportunidade perdida.

