Como brasileiros, há um certo sentimento nacional de que certas coisas não vêm ou nunca virão, e se um dia por acaso houver algum sinal delas, é apenas momentâneo. A celebração, no entanto, não deixa de ser intensa pelo pouco que dura, mas no fim se volta para casa sabendo que não vai durar e que não adianta se iludir. O número de vezes que isso ocorreu ao longo dos anos é incontável, e a própria Copa do Mundo tem sido um duro e perfeito exemplo dessa dinâmica. Hoje a esperança do Hexa já está bem distante, mas não obstante sempre retorna e, com cada jogo vencido, a festa é de mover o país inteiro até que o Brasil acaba perdendo e a mesma frase se ouve em muitas bocas: “Já sabíamos que iria acontecer” ou “Já era esperado”. Com o cinema, é um pouco pior porque estamos mais acostumados a sermos negados. São tantas instâncias em que a produção nacional levava o brasileiro a fazer piada sobre o nosso cinema ou quando fomos esnobados por falta de prêmios e indicações que a esperança já é naturalmente baixa. Apenas mais recentemente houve mais indicações e até o primeiro Oscar brasileiro com “Ainda Estou Aqui”. Um participante dessa nova fase é Kleber Mendonça Filho, já vencedor do prêmio do júri por “Bacurau” e de dois Globos de Ouro nesse mês de Janeiro com “O Agente Secreto”.
Todas essas vitórias foram vibrantemente celebradas, obviamente, mas como bem se sabe, a vida não é justa e as premiações muito menos. Isso não é dizer que “O Agente Secreto” seja um filme ruim ou pior que isso, pois não é, mas foi uma obra que me deixou com certos pontos de interrogação sobre o porquê de tantas premiações estarem simpatizando com ele e o premiando. Há muitos méritos e muita coisa que emociona, faz crescer os olhos e o coração de ver algo tão bem realizado sendo parte de nossa produção cultural e, mais do que isso, uma janela para o mundo ver um pouco da nossa cultura também. Por outro lado, certos quesitos básicos falham de uma forma um tanto… básica. Vai além de uma decepção de querer uma coisa e receber outra, por exemplo, por vezes sendo mais uma simples questão de desbalanço entre investimento de tempo e recompensa e por outras uma confusão entre mistério e vazio narrativo.

A história acompanha Armando Solimões (Wagner Moura) retornando para sua cidade natal em Recife. Sua volta, porém, não é o retorno dos mais comuns, dado que ele não chega como Armando, mas como Marcelo, e vai trabalhar em um instituto de identificação ao mesmo tempo que busca tempo para passar com seu filho, agora que sua esposa morreu. Com uma nova identidade, um novo emprego, e sempre olhando por cima dos ombros, Armando segue tentando manter seu anonimato conforme algumas figuras farejam em busca de qualquer rastro seu.
Algumas coisas não posso pensar em criticar. Não porque alguém me proíbe ou porque o status dita isso, mas porque são acertos tão genuínos que não há como abrir um belo sorriso ao vê-los presentes numa obra essencialmente brasileira. “O Agente Secreto” exala a tal brasilidade. Mais do que uma produção brasileira de um diretor brasileiro, é também muito representativo de aspectos culturais e, principalmente, visuais do que significa “ser Brasil”. Não é samba, carnaval, caipirinha e Rio de Janeiro, é um fusca amarelo fosco de para-brisa sujo e as ruas de Salvador com letreiros antigos e fontes quadradinhas, são as ruas cheias de cor e com gente na rua na época de carnaval. Bom, talvez a parte de samba e carnaval esteja ali, no fim das contas, mas jamais poderia acusar este filme de uma caracterização óbvia porque seria uma injustiça contra a Direção de Arte espetacular vista aqui. Da camisa suada à cantada que poderia ter sido escrita pelos nossos pais, seguindo até o fraseado peculiar dos Anos 70, há um carisma contagiante no Brasil apresentado por Kleber Mendonça Filho. Armando isso com uma trilha sonora de Samba, Disco, MPB e até um espaço para Chicago, e o apelo só cresce.
E talvez para alguns, esse fascínio seja o suficiente para se apaixonar por “O Agente Secreto”. É como ouvi certa vez num bar: “Qualquer cena dele tem muito mais arte que qualquer momento de ‘Ainda Estou Aqui’, um filminho insosso de classe média.” Sem entrar em méritos desse argumento esdrúxulo de como a régua de qualidade é ter mais ou menos arte, imagino que esse cidadão tenha sido um dos emocionados pela estética quase impecável vista aqui. E, claro, ao longo da noite nunca foram discutidos méritos de narrativa, temas, ou competência básica do filme contando uma história. Ao menos na minha experiência, percebi como é comum discutir o filme com as pessoas e que, quando finalmente chegamos nesses pontos mencionados, a reação costuma ser mais morna. Para além da crítica mais comum sobre o ritmo ser bizarramente sincopado e desbalanceado para uma duração de 2h41, há questões aqui bastante críticas que por pouco não me fazem considerar as qualidades de antes como faróis novos num fusca podre.

“O Agente Secreto” começa como um filme propositalmente lento que não revela quase nenhuma informação sobre o que se está vendo. Armando chega de carro num posto de gasolina de beira de estrada no meio do sertão nordestino. Há um cadáver no chão. A polícia eventualmente chega, mas não para resolver a questão do defunto apodrecendo na poeira. Ao menos simbolicamente, a introdução representa uma dinâmica que o filme repete e desenvolve como um bom filme de suspense: levantar suspeitas sobre qualquer um que aja estranho, sustentar a tensão e exaltar o calmo desespero do protagonista. Numa história com tantos personagens coloridos, é frequente o pensamento de que ele ou talvez aquele lá seja um filho da puta. Mas será que é o nosso filho da puta ou apenas alguém de pouca virtude que não quer nada com o protagonista? A história brinca com essas noções até que se revele por que há essa necessidade de tantos segredos, e isso funciona na criação do suspense e de um clima de desconfiança constante sem chegar em nível de paranoia em que todos são suspeitos. Neste ponto, excessos são moderados por uma sensibilidade narrativa que, infelizmente, não se encontra no resto da obra.
Por exemplo, se toda essa desinformação e ilusão proposital do espectador sustenta seu interesse por um tempo, mais ou menos quanto dura o fascínio pela estética geral, chega certo ponto em que o ritmo começa a titubear e o tempo investido se faz notar. Cenas extras, cenas que não acrescentam nada essencial nem complementar em nível de profundidade de personagem e de contexto, cenas longas ou sequências inteiras que parecem fora de lugar na narrativa. Isso sem contar núcleos plenamente desinteressantes que fazem questão de reafirmar o que acabou de ser dito poucos momentos antes. Para além de constatar o óbvio e insultar a capacidade de atenção da audiência, conforme o filme justifica menos e menos a presença de certos momentos, instaura-se o cansaço e a autoconsciência de questionar a existência de certas sequência. Então golpe crítico chega no clímax, que consegue trazer uma das poucas cenas agitadas aqui, outro terrível tiroteio do diretor e a trindade do anticlímax na forma de uma crítica política de ponta de alfinete, uma revelação patética e uma surpresa empolgante como um par de meias de presente. Acaba que a sensação de tempo dedicado para essa resolução não valeu a pena, apesar de todo o suspense.
Somando tudo isso, nasce o a grande questão de “O Agente Secreto”: com uma revelação tão fraca, quando finalmente se entende por que perseguem Armando, resta a decepção de ter dedicado tanto tempo para isso. De todas as coisas, de todas as desconfianças plantas e as falsas evidências, chega o momento que mata a promessa e termina com uma tentativa de último embalo sentimental-nostálgico sem chegar lá. Isso não anula os méritos de “O Agente Secreto” nem o arruína completamente, só acaba com o que poderia ter sido. E, no fim, resta ao brasileiro o possível sentimento ambíguo de saber que fomos tantas vezes esnobados com filmes melhores, mas felizes pelo Brasil ser premiado e o que isso pode significar para a indústria nacional. Por outro lado, se perdermos já era esperado também.

