Existem filmes que partem de uma idéia. Ou melhor, todos os filmes partem de uma idéia. O que gostaria de dizer é que muitas vezes tal idéia ou conceito parece estar mais evidente do que na maioria dos casos. Para mim, é um pouco difícil definir ou explicar “Stalker”, de Andrei Tarkovsky, em poucas palavras; já “Godzilla” possui uma interpretação um tanto mais visível e popular, ainda que coloque sua mensagem por trás de uma caracterização fantasiosa e extraordinária. Já no caso de “Die My Love”, fica brutalmente claro de onde vem a diretora Lynne Ramsay e o que ela busca explorar, algo que não é um problema exatamente porque nem todo cinema deve ser maquiado, subliminar ou irônico, porém esse parece ser um caso de superextensão de um ponto à exaustão.
A história acompanha um casal que se muda de Nova York para o interior de Montana quando o tio de Jackson (Robert Pattinson) falece e deixa sua casa para ele. Junto com sua esposa recém grávida, eles se realocam para uma pequena casa na floresta em meio às montanhas; sem vizinhos, sem civilização e com nada mais do que sua própria companhia na maior parte dos dias. Dias estes que se tornam cada vez mais longo conforme Grace (Jennifer Lawrence) se adapta às novas responsabilidades como mãe, as quais se mostram exaustivas, destrutivas e a levam por um caminho que a levam a perder contato com si mesma e com o mundo.

Pois bem, eis que a idéia do filme não demora muito para se apresentar como uma exploração de um tema, colocando de uma forma simples. Não é uma história forte em trama ou de muitas curvas, mas uma que explora personagens, principalmente, e suas rotinas. Por outro lado, não é pragmaticamente sobre rotina e repetição como “Paterson”, por exemplo, e sim da ausência de qualquer evento relevante e repetido que constitua uma vivência padrão. A vida da protagonista se resume a, basicamente, ficar em casa o dia todo cuidando do filho pequeno enquanto o marido passa o dia fora trabalhando. Estando distantes de qualquer tipo de civilização, morando num chalé na floresta, a vida se torna morosa e entediante, sem nada para fazer além de respirar o mesmo ar e viver o mesmo dia todos os dias. “Die My Love” é um estudo sobre o enfado e o sofrimento de uma pessoa que vive um pesadelo diário chamado Depressão Pós-Parto.
E é isso. É até difícil desenvolver uma linha de raciocínio sobre “Die My Love” porque ele é tão centrado na mesma coisa que limita o desenvolvimento de um texto para onde esse tema se desdobra ao longo da história. De fato, esse é o principal problema aqui: o filme parecer estritamente limitado. É apenas um assunto e uma eterna exploração sempre dentro de um mesmo campo e principalmente abordando a faceta emocional, ou seja, como os personagens reagem psicologicamente ao contexto em que foram inseridos. Em poucas palavras, digamos que Grace parte de um ponto de tristeza inicial, ficando cada vez mais triste e desequilibrada, ao passo que Jackson inicia pouco empolgado e vacila sempre se rendendo ao descaso. E por mais que isso possa ser considerado um tipo de spoiler, não demora nada para que esse arco fique evidente ou, até mesmo, que se complete já nos momentos iniciais e apenas se repita ou se intensifique sem necessariamente evoluir. Pequenos arcos fora desse agravamento emocional continuam sempre atrelados ao mesmo tema principal, o que não parece ser um problema porque é natural que um filme não fuga muito de seu núcleo principal, enquanto aqui soa como um tipo de limitação temática ou apenas uma perpetuação de um estar falando da mesma coisa sempre.
Novamente, é estranho criticar um filme por falar da mesma coisa quando há uma infinidade de obras previsíveis, bidimensionais, de gênero, ou atípicas em sua forma que são bem-sucedidas, ao menos aos meus olhos, mas ninguém disse que opiniões devem ser coerentes sempre e que a crítica de cinema deve ser justa. É sempre subjetivo tentando seguir certa consistência não escrita em pedra, no fim sempre se resume à experiência individual e se faz sentido ou não. Talvez haja algum filme extremamente limitado que, talvez abraçando sua obsessão, soe mais interessante que “Die My Love”, agora não consigo lembrar. Meu ponto continua: torna-se cansativo sentir que tudo parece uma representação visual de uma psicopatologia; real e muito importante, sim, mas que nessa abordagem não atinge um nível de excelência que faz a obra transcender sua limitação aparente.

Apesar de tudo isso, há espaço para algum brilho ainda. Não posso deixar de exaltar as interpretações do elenco principal — e talvez até coadjuvante, embora tenham menos destaque — e seu sucesso em usar a obra para exaltar-se dentro dos limites já mencionados. “Die My Love” funciona como o clássico mostruário de atuação, um filme regular que conta com um elenco de competência e dá-lhes espaço para realmente mostrar o poder disso. Embora esteja restringida a certo espaço narrativo, Jennifer Lawrence tem a oportunidade de mostrar a solidão de uma mulher que é largada às traças numa casa velha ao mesmo tempo em que perde a razão diariamente e sofre por isso atrapalhar sua habilidade de cuidar da criança que ela deveria amar. São muitos sentimentos co-existindo, e todos são respeitados e bem representados pela atriz, que também expande essa gama de esplendor na relação com seu parceiro de elenco, Robert Pattinson, e na química patológica que existe e se desenvolve entre eles. Diria que o último tem um pouco menos de brilho, ainda que esteja muito bem no papel e seja uma peça essencial para que se compreenda uma boa parte das complicações da personagem de Lawrence.
“Die My Love” não deixe de ser interessante, apesar de tudo, é uma história que apresenta uma ótica focada exclusivamente em um ponto. Nele, pode-se ver muitas formas como a tal depressão pós-parto pode afetar uma mulher, como pode deixá-la deprimida, naturalmente, e mais que isso, explora os limites da intensidade dessa condição, como pode-se chegar numa dita loucura nos piores dos casos. Por fim, é uma obra que me roubou certo tempo para escrever sobre ela porque me senti até constrangido de bater numa mesma tecla, numa mesma crítica, tal qual ela insiste em permanecer num mesmo terreno o tempo todo.

